O fim da licença-maternidade e o nó na garganta de voltar ao trabalho
O retorno ao trabalho depois da licença-maternidade mexe com culpa, identidade e amamentação. Entenda por que essa transição é tão difícil.
Por Valéria Regina Silveira · Psicóloga · Criadora do Mamãe IA
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Poucas experiências são tão doloridas e pouco compreendidas quanto o término da licença-maternidade. A sociedade costuma tratar essa data com uma frieza quase protocolar, como se a mulher pudesse simplesmente apertar um botão, guardar a mãe na gaveta às oito da manhã e reassumir a profissional de antes como se nada tivesse acontecido.
A realidade do retorno costuma ser bem diferente: o peito que incomoda durante uma reunião, a cabeça presa na imagem do bebê, o coração apertado na hora de deixar a criança na creche ou aos cuidados de outra pessoa. Existe uma culpa silenciosa que ronda esse retorno, como se voltar a trabalhar fosse uma forma de abandono ou de ingratidão com a maternidade.
Amamentação e trabalho não combinam sozinhos
Para quem ainda amamenta, o retorno ao trabalho traz uma camada extra de preocupação. Pesquisas qualitativas com mulheres e empregadores mostram que conciliar amamentação e trabalho remunerado exige adaptações concretas do ambiente profissional, como tempo e local adequados para ordenhar, e que a falta desse suporte é uma das principais barreiras relatadas pelas próprias mães [1]. Dúvidas sobre como manter a amamentação nessa fase devem ser conversadas com um profissional de saúde ou com o banco de leite mais próximo, já que cada rotina e cada corpo pedem um arranjo diferente.
Trabalhar não é abandonar
Trabalhar, para a imensa maioria das mulheres, é uma necessidade de sustento e também uma parte legítima da própria identidade. Você não ama menos o seu bebê porque precisa, ou deseja, exercer a sua profissão. Amar e cuidar também passam por garantir o chão material e o futuro daquela família.
O peso da política de licença
A forma como a licença parental é estruturada também influencia diretamente a saúde mental de quem cuida. Revisões sobre o tema apontam que licenças mais curtas ou mal distribuídas entre os pais estão associadas a maior sobrecarga emocional para a mãe no retorno ao trabalho [2]. Isso ajuda a explicar por que a transição é tão mais pesada em alguns contextos do que em outros, e reforça que a dificuldade não é um problema pessoal, mas também estrutural.
Atravessando essa fase
- Converse com o setor de recursos humanos sobre horários e pausas possíveis antes do primeiro dia de volta.
- Combine com quem cuida do bebê um canal rápido de notícias ao longo do dia, isso costuma aliviar a ansiedade.
- Permita-se chorar no caminho, se for preciso, sem transformar isso em prova de fracasso.
- Dê um tempo de adaptação a si mesma, tanto no trabalho quanto em casa.
Se você está vivendo esse retorno com lágrimas escondidas no transporte ou no banheiro da empresa, dê tempo ao seu coração. A travessia entre o ninho e a rua é uma das mais desafiadoras da maternidade, e não há nada de errado em senti-la pesada.
Quando buscar ajuda profissional
Se a angústia em torno do retorno ao trabalho vier acompanhada de tristeza persistente, crises de choro frequentes ou dificuldade de funcionar no dia a dia, procure um profissional de saúde mental. Para escuta emocional, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia.
Se o que você sente estiver intenso, durar semanas ou houver risco para você ou para o bebê, procure ajuda profissional. Em emergência, ligue 192 (SAMU) ou 188 (CVV). Onde buscar ajuda
Fontes
- [1] Chang et al., 2021, Women's and Employers' Experiences and Views of Combining Breastfeeding with a Return to Paid Employment: A Systematic Review of Qualitative Studies (Journal of Midwifery & Women's Health)
- [2] Heshmati et al., 2023, The effect of parental leave on parents' mental health: a systematic review (The Lancet Public Health)
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica, psicológica ou de outro profissional de saúde. Política editorial

